sábado, 16 de julho de 2011

Diga a verdade, doa a quem doer.


- Você ainda vai morrer por causa disso. - ele não escondeu a verdade em suas palavras; falou sério e determinado, enquanto ela abaixava a cabeça e olhava para o piso frio. A frase pronunciada teve um efeito devastador em sua mente, tudo o que ele queria naquele exato momento. - Você está se torturando e está fugindo. Um dia você vai ser encontrada, e espero que não morra.
Ele estava mais do que certo a seu respeito. Havia analisado corretamente todas as ações e sentimentos dela como se fosse apenas um objeto a ser estudado, um livro a ser lido e interpretado. Mas ele tinha essa habilidade. Ele conseguia entender as pessoas como mais ninguém entenderia e, mesmo com o coração partido e os sentimentos transformados em pó, sempre acertava.
            - Eu sei... - disse a garota, cabisbaixa. As primeiras lágrimas começavam a derramar sobre seu rosto, maiores, mais pesadas do que quaisquer outras. Elas vinham numa quantidade absurda, inigualável a qualquer outra ocasião. Mas ele não se importou. Poderiam ser verdadeiras, porém ele não ligava. Sabia o que estava fazendo e sabia que ela iria chorar. Até agora, tudo ocorrera como ele previra.
            - Não parece que sabe. Se soubesse realmente, já tinha parado de fugir há muito tempo.
            - E como eu faço para parar isso? - gritou a coitada - Eu.. eu.. não sei o que fazer!
            - Eu não vim aqui para te dar um mapa ou detalhes do caminho que deve trilhar ou do que deve fazer. Eu sou apenas um mensageiro; um amigo que está dizendo nada mais do que a verdade. Entenda que eu nunca descobri quais eram os corredores pelas quais eu passava até chegar aos seus fins e perceber que eles eram os certos. Não faço a menor idéia do que VOCÊ precisa fazer ou precisa fazer acontecer. Nunca soube comigo. Jamais saberei para você.
            Ela o fitou com os olhos vermelhos, pulsando tristeza, melancolia, ódio e raiva diante daquelas palavras tão sábias e tão vazias. Ele se preocupara e viera em seu encontro. Mas o que adiantava ele estar ali, ao seu lado, lhe alertando de um futuro não muito distante, se ela não sabia o que fazer? Aparentemente, nem ele sabia. O que fazer agora? Continuar chorando? Ela sabia que isso não adiantaria em nada. Concentrou algumas energias na ponta de sua língua e disse a primeira coisa que veio a sua mente quando o viu chegando em sua casa e a chamou para conversar em particular há alguns minutos atrás:
 - O que você está fazendo aqui?
Ele não respondeu. Continuou dando as costas aquela mulher aos prantos, enquanto olhava atentamente para a rua. Nem ele sabia ao certo o porquê de estar ali. Era mais uma daquelas sensações que tivera em tantas ocasiões. Aquela sensação de "isso é o certo a se fazer agora, mesmo que me machuque no final". Ele conhecia muito bem a "sensação" e sabia o que ela significava. Era um sinal de que usava sua mente para pensar nos riscos, enquanto seu coração tomava as rédeas de seu corpo e o fazia agir, o fazia tremer e, principalmente, o fazia passar mal. Não fora sua mente que o levara até ali e explicar isso a aquela mulher lhe pareceu inconveniente. No que adiantaria, afinal, ele tentar lhe explicar sobre o coração se ela não conseguia conectar seus sentimentos com seu cérebro; não conseguia enviar uma mensagem, alta e clara, para seu próprio coração, dizendo que precisava seguir em frente e necessitava, de qualquer maneira, se livrar daquele amor tão letal que carregava como uma parte de si própria? O rapaz já sabia. Nada adiantaria ele falar sobre corações com ela. Ela só conseguiria entender que estava perdida. Apenas isso. A viagem fora um fracasso total e ele sabia disso. Por que viera então? Nem ele sabia mais responder essa pergunta, mas tentou, de alguma maneira, juntar os pensamentos e sussurrar algo:
            - Sabe, não faço a menor idéia do porquê eu vim aqui. Não era minha mente que ditava, era meu coração. Acho que disso você entende um pouco, não é mesmo? - ele fez uma pequena pausa e olhou para trás, para ela. Os olhos ainda o fitavam com aquela confusa fusão de sentimentos paradoxos e ele percebera que ser sarcástico ou engraçadinho agora era uma péssima escolha para a conversa. Virou novamente para a rua e continuou ditando as palavras que lhe vinham a mente - Acho que, no fundo, eu ainda me preocupava com você. No fundo, eu ainda queria te salvar, te fazer enxergar. Então, acabei vindo aqui para lhe dizer essas coisas. Ainda que, nesse mesmo fundo, eu saiba que não adiantará em nada, porque no momento que eu virar minhas costas para o portão de sua casa, você irá se trancar no seu quarto e chorar como nunca chorou. Vai chorar por saber que eu não disse nada mais do que a verdade e que, mesmo se cegando temporariamente, eu sabia de tudo que se passava dentro de você e que foram necessários apenas alguns instantes para juntar todas as peças do quebra-cabeça. Vai chorar porque sabe que seu coração está perdido no escuro e não sabe se existe alguma luz pelo caminho que segue, sem enxergar nada. Vai chorar porque ainda o ama e porque, aquele que você tentara amar, aquele com quem você desperdiçara energia tentando se recuperar do vazio deixado, é o único que te entende e o único que está, de alguma maneira, se preocupando com você. Mas poderá chorar o quanto quiser. Nunca vai chorar mais do que eu chorei.
Ela continuou fitando com atenção as costas daquele ser que um dia a amara com todas as energias que lhe eram disponíveis. Ela sabia que ele era uma boa pessoa. Um excelente rapaz que sempre a fazia dizer que ele merecia coisas boas, alguém melhor. Ele sempre respondia que não. Dizia que ela era o melhor que lhe poderia acontecer. Agora, esse mesmo rapaz que se preocupara tanto, estava a sua frente, lhe ditando palavras que não deixavam ela mais confusa. Apenas mais triste.
Se lembrava dos bons momentos que passara ao seu lado. Mas todas essas lembranças eram ofuscadas se fossem comparadas com as que ele tinha. Ele a amara de coração, enquanto ela pegava esse amor e usava como remédio para suas fundas feridas. Sentiu nojo dela mesma por um tempo e desejou morrer por instante, fechando os olhos com determinação para tentar ter seu desejo realizado. Abaixou a cabeça e só viu a escuridão de suas pálpebras fechadas. Ela percebeu algo encostando em seu ombro direito e rapidamente levantou sua cabeça e abriu os olhos. A mão direita do rapaz que ela tentara amar sem sucesso se unia ao seu ombro, que tremia. Ele se abaixou e ficou de joelhos, olhando para aquela expressão inerte de outros sentimentos além da culpa e da vontade de desaparecer de uma vez por todas.
            - Não. A morte não é uma solução, pelo menos não para os fortes. Apenas para os covardes. Fugir de seus sentimentos sem ao menos tentar confrontá-los com tudo o que tem é a pior coisa que pode fazer agora, e quero que entenda isso bem. Sua morte física não trará bem algum. Você morrerá um dia. Seu coração irá morrer, como um dia o meu pereceu. Não será eu que irá causar essa dor a você, mas você mesma, e é isso que venho tentado lhe alertar. Seu coração morrerá, simplesmente para lhe dar espaço e se libertar. O que você fará depois disso será de sua conveniência. Tentará amar de novo? Irá viver uma vida que esteve trancafiada por causa de um amor intenso e assassino? Eu não sei, querida. Quando meu coração morreu, eu fui junto. Desapareci. Simplesmente porque aquele ser que eu era não servia mais para ninguém. Eu era uma pessoa que queria ser amada de qualquer maneira, não importava se iria doer ou não. Mas agora eu não me importo. Descobri o que eu precisava fazer. E é isso que irá acontecer com você. Precisará colocar sua mente em ordem quando isso acontecer; precisará se recompor. Não sei como irá morrer, ou se somente seu coração irá falecer, mas precisa estar preparada para todas as oportunidades de crescer e se sentir livre. Siga seu coração, mas coloque um filtro nele, pelo amor de tudo que é sagrado.
Ela cessou as lágrimas por um instante e continuou imóvel, olhando para aquele que viria ser seu salvador. Ele não ligava mais para a dor causada. Ele não era mais ele. Era uma pessoa melhor do que antes. Teve um instintivo desejo de lhe beijar os lábios. Mas ela sabia que isso não era certo com ele. Poderia dar esperanças a aquele coração recém inaugurado depois de tantos ferimentos e cicatrizes curadas. Ela percebeu que ele havia entendido o que passava em sua cabeça e se levantou, tirando a mão de seus ombros. Se virou e seguiu em direção ao portão de saída da casa, tentando não olhar para trás e ver aquele rosto triste e belo mais uma vez.
            - Espero que minha caminhada até aqui não tenha sido em vão. O sol está tão forte aqui fora que seria possível fritar um ovo no meio da rua. - dali, o rapaz de novo coração parecia ainda mais belo do que em qualquer momento. A luz lhe batia no rosto e nos cabelos compridos, iluminando um semblante que não sentia lágrimas havia algum tempo. Um semblante que, como ela pôde perceber, estava sorrindo enquanto olhava atentamente para o sol, com sua mão direita sobrepondo seus olhos para diminuir o total de traços iluminados traçados nele. Se virou mais uma vez para a mulher que estava sentada em uma cadeira ornamentada que ficava na varanda da casa e de despediu. Fechou o portão e seguiu pela rua deserta, a não ser por ele mesmo.
Sabia que a viagem tinha dado certo de alguma maneira, mesmo que não para ela, mas para ele mesmo. Conseguiu colocar em ordem pensamentos um tanto já perdidos e se sentiu mais livre do que nas últimas vezes.  Lembrou-se dos bons momentos que passara com aquela garota; momentos que pareciam uma existência. "Uma existência...". Continuou andando e parou em uma esquina, enquanto olhava atentamente para o sol.
            - E agora, é só seguir adiante. Está um dia lindo. Mas amanhã será maravilhoso. Certeza.
Sua convicção era grandiosa naquelas palavras tão simples e jubilosas. Era novamente aquela "sensação" lhe cobrindo os sentidos. Sabia o que fazer agora. E tudo se resumia a seguir em frente. Metaforicamente. E literalmente. 

9 comentários:

  1. Belíssimas reflexões entre um morto-quase-vivo e um vivo-quase-morto!
    Abraços!

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  2. gostei muito viu hehe ^^

    segue meu blog também :

    http://viceveersa.blogspot.com

    tem novi dia 01/08 hehe. bjbj

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  3. Gostei daqui *-*

    seguindo. segue ?

    jhenyfferandrade.blogspot.com

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  4. Seguindo,segue?

    http://devaneiodeumaadolescente.blogspot.com/

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  5. ".. doe sangue e me dê seu telefone"

    Adoro a maneira pela qual seus textos despem meus pensamentos e transcrevem as palavras antes mesmo de eu as pronunciar.

    :)

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  6. Agradeço aos comentários positivos feitos em relação ao texto. Isso me alegra bastante =)

    Fran, fiquei esperando alguém fazer um comentário parecido o teu nesse post. Estava sem ideias e busquei inspiração em músicas. Piano Bar me apareceu maravilhosamente no momento exato! (se perceber, tem outros textos no blog com partes de músicas)

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  7. E eu esperava ler um texto feito o seu, rs. Engenheiros com certeza é a melhor inspiração possivel. As letras são escritas de forma impressionante.
    Procurarei as músicas em outros textos, como em um caça palavras. ^^

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