sexta-feira, 8 de julho de 2011

Uma outra estação.




Era dezembro. Pleno verão. Tempo bom. E eu, vagando por aí com um coração quebrado. Estava cansado de ir atrás de alguém. Estava cansado de ser machucado ou ser usado. Havia me cansado de ser feito de idiota e desisti de procurar alguém. Eu estava melhor sozinho. Não teria que me preocupar com me magoar mais no final, apenas comigo. Era a melhor coisa que eu poderia fazer. Então, eu sai com meus amigos. Sabe aquela expressão que diz "quando você menos estiver procurando, você acha?". Bem, foi isso que aconteceu. Eu te achei. Ou você me achou.

Não importa. Nos encontramos no final daquele mês e sabia que algo tinha acontecido. Não sabia exatamente o que, então nem me preocupei. Não demorou muito para te achar na internet e a gente começar a conversar mais e mais. Era legal conversar com você, pelo menos alguém me entendia dentre todas essas pessoas que nos cercam. Até comecei a escrever novamente e te mandar os textos. Depois de um tempo eu comecei a sentir algo diferente. Relacionamento virtual? Nem tente cara, você já fez isso uma vez e não deu muito certo, se lembra? E assim eu continuei. Eu achava nos textos que eu escrevia um meio de conversar com você e uma maneira de esquecer e desabafar. Sempre nas entrelinhas. Me lembro de um dia em que você me perguntou se eu estava apaixonado, já que tudo o que eu escrevia era tão romântico. Não, eu não estava. Pelo menos, não naquele dia. Me perguntou de uma outra menina, se eu estava gostando dela. Sinceramente? Coração quebrado. Não sabia o que eu sentia. Foi um pouco depois dessa indagações que eu comecei a pensar. E percebi que estava gostando de você sem ao menos te ver há mais de dois meses. Loucura. E me mantive na loucura por mais um tempo, até que me surgiu a oportunidade para sairmos.

Acho que ninguém faz a menor idéia da felicidade que me veio naquele exato momento e nem das brigas que tive em casa, simplesmente para poder sair contigo. Mas consegui. E nunca vou esquecer daquela noite. Nosso primeiro encontro e eu passei mal. Só podia acontecer comigo. Saímos também no dia seguinte. E no fim de semana seguinte. Agora eu poderia responder suas perguntas. "Está apaixonado?". Sim. "Por ela?". Não. Por você. O problema de me estar apaixonando e tido meu coração quebrado mais de quatro vezes em menos de 3 anos não ajudou em nada. Na verdade, foi isso que sempre me fazia passar mal. Eu não queria estragar nada. Eu não queria adiantar nada, somente porque era você em questão e eu estava percebendo que não queria te perder de maneira alguma.

O tempo foi passando e tive várias oportunidades de te beijar. Mas todas as vezes que eu ia tentar, eu passava mal. Era aquele friozinho no estômago misturado com "será que isso é certo?". Devia ter feito isso antes, mas não fiz. Tive medo e travei em todos os momentos. Fiquei pensando em tudo isso e escrevi mais e mais. Os textos falavam sobre isso e te mandei. Dois dias depois eu estava na porta da sua casa te pedindo em namoro. Sem nunca ter te beijado. Putz. Fodeu. Tem que ser agora. Mas não foi. Nem no dia seguinte. Somente dias depois. Me arrependo de não ter feito isso antes. No momento que meus lábios encostaram nos seus, eu me perdi. Me perdi completamente em tentação e paixão por você. Ai veio a conversa com o pai. Outro dia complicado e outra vez que eu passava mal. Mas tudo bem, essas coisas passaram. Fui no shopping com sua família, visitei incontáveis vezes sua casa para assistirmos filmes. Chegou meu aniversário e fui na tua casa comemorar. "Fecha os olhos e abre a boca". Ahn.. tá bom. Brigadeiro. Quem iria imaginar. Depois daquele dia eu nunca fui o mesmo. A paixão, que é algo repentino e intenso, se transformou em outra coisa. Em amor. Esperava por aquelas terças que eu passava na sua casa, perdia a hora de ir embora e chegava atrasado nas aulas de teatro. Aguardava pelas quintas e sextas que eu iria te rever. Agradecia por todos os sábados que tínhamos e comemorava de poder te ver nos domingos. Sempre depois de sair da sua casa eu sentia uma vazio e esperava atentamente pelo próximo momento que passaríamos juntos. Como se todos os nossos encontros fossem vidas, existências, que agora jazem distantes do meu toque, trancafiadas na memória. Era legal te morder. Você reclamava e tentava me morder também. Nunca fiquei com as marcas. Você ficava puta de raiva por causa disso. Era legal, também, te fazer cosquinhas. De sua boca saiam risadas e pequenos gritos. "Gabriel...!", "Para!" E aí você tentava fazer o mesmo comigo. Tudo isso era divertido.

E dessa maneira nossas vidas foram passando, comigo ignorando o que não queria entender e/ou ver. Até o dia que eu percebi que havia algo diferente em você. Não sabia exatamente o que, mas eu tinha medo de ser a mesma coisa que já havia partido meu coração incontáveis vezes no passado. Será que ela está confusa e não sabe o que sente? Será que ela quer apenas amizade? Fiquei com essas perguntas na cabeça, mas eu não consegui conte-las por muito tempo e logo perguntei. "O que você sente por mim?". Você demorou para responder. Quando alguém demora para responder uma questão relacionada ao coração, ela já não tem mais certeza de nada. Já não sente o mesmo. É, já sabia o que iria acontecer. Marcamos uma conversa na sua casa. 21 de Maio de 2011. Eu me lembro do tempo lá fora. Estava ensolarado. Um pouco frio, mas maravilhoso. Dentro de sua casa eu até me perguntei: "como é possível o tempo, lá fora, ser tão lindo e o clima daqui ser tão.. nublado?" Ficamos no sofá. Conversando. Eu já sabia o que você diria. A única coisa que eu realmente estava concentrado era em como eu iria reagir. Me segurava para não chorar. "É só amizade mesmo." Palavras conseguem quebrar, mas clichês assim, usados mais de uma vez contra você, te esmagam, transformam todos seus sentimentos em pó. E mesmo assim eu ainda fui forte. Ai sua mãe chegou e eu caí em prantos. Eu estava enfrentando a verdade pela primeira vez. Eu estava cara-a-cara com a maior tristeza que poderia me assolar naquele momento. Chorei em sua casa. Chorei na minha. Chorei no dia seguinte.

Todos os dias eu olhava para aquele papel azul que ficava na minha estante e que era uma carta de um mês de namoro. Eu não conseguia mais olhar para ele. Toda a vez que eu tentava, principalmente naquelas primeiras semanas depois que rompemos, eu chorava. Mas o tempo passa não é? Eu sentia que meus sentimentos não diminuíam. Somente a dor variava, mas isso porque ela estava aumentando. Cada dia que passava. Cada segundo contado no relógio. Me enterrei em livros. Escrevi mais e mais. Nada saía do jeito que eu queria. Nada estava no jeito que eu imaginava. E sem perceber, estávamos mudando de estação. Eu com o frio e a dor estávamos completando um mês. Eu tinha um livro seu comigo. Li ele o mais rápido possível para te devolver no dia que eu queria. 21 de Junho de 2011. Solstício de inverno. Eu tinha escrito um texto e colocado na página 216 do livro. Nunca soube exatamente se o que eu fiz naquele dia foi certo para você. Mas foi certo para mim. Cheguei na porta da tua casa. Você me apareceu com um sorriso. "Oi! Quer entrar?". Não. Se eu entrar eu não vou aguentar e vou chorar e já basta você ter me visto chorar uma vez. "Não, eu já vou indo. Vou só devolver o livro. E abra ele na página 216. Tchau". Não sabia que você iria chorar depois daquilo. Não sabia que você iria me escrever um texto sobre nós. Não me leve a mal, mas eu precisava daquilo. "Os ventos mudaram de alguma forma." Sim, mudaram. Não estou mais com você e nem sinto mais o vento tocando minha alma. "Sinto em abandonar o passado." Você é meu passado e eu preferia continuar te amando, mas cada minuto que eu te amava era um minuto a menos na minha vida, simplesmente por uma causa perdida. "Vou para onde o vento me levar. Vou para onde meu coração mandar." O vento te trouxe até mim e meu coração me levou até você. E agora, seu coração me abandonava num lugar enquanto o vento me mandava para outro. Eu ainda te amava quando escrevi aquele texto e o deixei entre as páginas daquele livro. Tudo era uma mensagem bem clara. "É outra estação. Não posso ficar vivendo de coisas que só me corroem. Eu ainda te amo, mas acho que isso é meu adeus. Você deseja que sejamos amigos. Aceitei isso porque não queria te perder. Mas conversar com você nesse último mês sempre me matava. Mas não a partir de hoje. É inverno. E quero que entenda que vou te enterrar na neve, junto com as outras. Isso porque eu te amo e te amar só me causa dor. Que sejamos amigos." Depois que saí pelo portão de sua casa eu me virei umas três ou quatro vezes, até ver que você tinha fechado a porta. Eu esperei você fechá-la e chorei ali mesmo, na rua. Porém eu me aguentei e segui em frente. Morri quando cheguei em casa.

Fui cego. Eu quis ser cego. Éramos as pessoas certas no momento mais errado e certo possível. Errado para ficarmos juntos. Certo para entender quem éramos e quem somos. Você precisava de mim e eu precisava de você. Mas nunca daria certo. Teu coração nunca iria me pertencer e, agora, vejo isso claramente. Tentei me negar a verdade porque eu saberia que iria doer; saberia que no momento que eu enxergasse iria desistir; seria meu ponto final. Foi bom enquanto durou. Agora, é viver a vida da melhor maneira que podemos. Você, com sua paixão sem fronteiras ou limites. Eu, enterrando tudo e com minha eterna busca por felicidade. Não se preocupe. Agora eu entendo tudo. Eu vejo tudo. Eu te perdôo. E obrigado por tudo, de coração. Lembrarei de você para sempre. Como minha Clara. Como minha Cho. Como minha Gwenhwyfar. Como outra estação que se passou.

3 comentários:

  1. "É outra estação...."
    De todo o seu texto, me agarrei a essa frase, ela tem um significado pra mim agora, talvez porque deva esquecer o que houve, agora é novo. É outra. É outro. Eu sinceramente adorei o seu texto, a maneira como escreve e o mistério por trás de cada palavra. Continue postando e me informe quando postar novamente.

    @hellswetri

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  2. Engraçado que apesar de sermos individualidades as experiências, as percepções e as sensações são as mesmas que todos nós temos... Só mudamos de endereço mesmo!
    Grande texto!
    Firme e Forte, Gabriel!
    Abraço!
    .........
    texticuloscronicos.blogspot.com

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  3. Muito bom o blog
    estou seguindo se puder passa la no meu e segue tambem
    http://linekerpablo.blogspot.com/

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