domingo, 21 de agosto de 2011

Em cinza


Em cinza eu me visto, em cinza o céu desfila. Frio, nublado, dia calmo de inverno enlouquecido. Mando sms e digito nesse frio. Minha respiração cria uma fumaça branca. Como eu amo frio e chuva. E acordar não me parece ser mais um tarefa árdua. Já aguento não olhar para aquele papel azul, já aguento aceitar as verdades. Mesmo com tempo feio, eu me sinto feliz. Em cinza eu digito as palavras pelo celular e em cinza eu escrevo esse texto. A música toca, o cheiro de comida flutua da cozinha. Essa calça velha de moletom cinza me deixa quente. As letras cinzas que vibram meu celular me aquecem. Porque mesmo sem sol, os dias se tornaram quentes. As tristezas que eram pintadas em preto ou em branco se equilibraram. Cinza. Bem claro. Como a camiseta que visto. As horas passaram enquanto eu lia na cama. As horas passam enquanto escrevo. E quero que as horas passem para eu logo te ver. Porque mesmo sem sol e com chuva, o cinza me alegra. Eu estou iluminado. Sinto que o mundo é meu. E por coincidência, posto isso num lugar cinza. Você, que me responde em letras cinzas, é o meu cinza, meu equilíbrio e minha jubilação, e você me ilumina mais que o branco. Deixe suas tristezas no cinzeiro, querida, me acompanhe pelo pôr-do-sol, sem sol, cinza. Sem planos. Apenas sentindo o frio dessa tarde cinza.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Divagação

[E por algum motivo, repeti o mesmo hábito que mantenho há meses, quase anos. Na verdade, o motivo é simples: virou hábito. Como doença, os sintomas aparecem e me atacam todos os dias. Lembrar das coisas não me parece mais algo a fazer antes de dormir ou ao escolher uma opção que vai mudar minha vida. É comum me entregar aos braços das memórias turvas que assombram e alegram meu passado. E se tornou tão vital quanto respirar. Engulo as lembranças que atingem minha mente e revejo as fotografias que meu coração tirou naqueles momentos mais fortes e emocionantes. Eu respiro a essência do passado como se fosse oxigênio e tento encontrar motivos e razões que me levaram à aqueles acontecimentos.

Tudo acontece tão rápido na minha mente que nem percebo que já estou lá, longe da realidade. Entretanto, não me preocupo com isso. Revivo memórias e imagino futuros com frequência. Tudo isso na minha cabeça. Raramente passo a limpo. Minto e digo que é preguiça. Não. É medo. Medo de estragar essas fantasias tão reais que habitam dentro do meu ser. Sejam as já salvas, aquelas de tempos passados, já guardadas em retratos; ou as em formação, na qual ergo dúvidas e armo impossibilidades. 

Mas as vezes eu uso as palavras e crio um muro com elas. Um muro que ninguém vê porque eu não deixo. Penso que as pessoas não entenderiam. E a maioria realmente não iria entender. Como uma amiga minha disse hoje: "Você é muito complicado". Por que facilitar se podemos, simplesmente, complicá-las? E nisso tudo, eu acabo voltando para aquilo que me atormenta; volto a ser trancado em caminhos estreitos, feitos de paredes ornamentadas com letras, sons, e imagens; continuo vagando por caminhos, sem saídas, pintados de preto, branco, cinza e sépia. Um lugar meu, complicado ao meu jeito e impossível para o restante. Além do mais, meus arquivos mentais são extensos....]

Lembranças. Nossa vida é feita delas. Estão lá por algum motivo. Seja para não cometermos erros do passado ou, talvez, para trazer sorrisos ao recordar um piada que nos foi dita. Afinal, nada dura para sempre, e fotografias sempre são necessárias. Sejam as escritas, as verdadeiras ou as que guardamos em nossos corações.


Olhar para o passado é como olhar pelo retrovisor de um carro. É importante, mas nosso rumo está a nossa frente, não atrás e apenas olhamos para saber se estamos, realmente, fazendo tudo certo. E depois de olhar para ele, segure as mãos firmemente no volante, breque, acelere, faça o que vier a mente. A viagem é sua.


sábado, 13 de agosto de 2011

Entender. Pra quê?


E aqui estou, sentado num bar, tomando algo para me esquentar. Fico pensando em mim e em você. Em nós. No nada. Só estou aqui porque não havia mais lugar para ir. Mais refúgios para me esconder. Não bebo por gostar, só bebo para esquecer de tudo, matar os sentimentos ruins que estão dentro de mim. Já não me importa você, mas o seu efeito na minha vida. E assim eu peço outro copo pro garçom. O pego, tremendo. Viro tudo que estava dentro dele sem me preocupar com efeitos colaterais. Tomo tudo como se fosse um remédio; um analgésico para toda essa dor, que age em mim em todos os locais. Coloco o copo sobre a mesa novamente. Não tenho costume de beber e já estou começando a ficar confuso. Melhor parar. Se eu tomar mais uma eu nem conseguirei sair daqui. Pelo menos, não sem cair várias vezes no chão. Pago a conta e vou lá fora. Acendo um cigarro. Eu tinha lhe prometido que iria parar. E havia parado. Mas cadê você? Olho para os lados e não te vejo. Lembro que foi uma promessa de quando estávamos juntos. Agora faço o que quiser. Dou outra tragada e olho para o céu de inverno. É noite e tudo está mais frio que o normal. A bebida não me aqueceu. A tragada do cigarro não me convenceu de nada. Jogo o cigarro fora e vou andando, cambaleando pelo efeito das doses alcoólicas. Começa a nevar. A neve vai caindo devagar, sem pressa, no meu rosto descoberto do capuz. Sinto os flocos evaporando e virando água entre minha barba. Sempre amei neve. Pelo menos uma coisa que eu amo está inteira. Não mudou. Não desapareceu. Vou andando e passo em frente a sua nova casa. Aqui é mais frio do que em qualquer outro lugar da cidade. É mais triste e cinza. Olho para baixo, em direção ao meu pulso esquerdo. 00h13. Talvez eles me deixem dar uma visitada. Abro o portão e vou seguindo a trilha, com os pequenos prédios de cor de céu nublado cobrindo as laterais. Vou subindo trilha acima e encontro o segurança.
            - Ei, moço! Você não sabe que é proibido a entrada aqui depois da meia-noite?
            - Sabia sim, seu guarda. Mas eu estava passando por perto e resolvi visitar alguém.
            Ele me olhou de cima para baixo. Se eu estivesse mais bêbado, com certeza ele não me deixaria passar. Não foi o que aconteceu.             
            - Certo, certo... Quem você está procurando?            
            Fiquei quieto por alguns segundos. Era a primeira vez que eu iria te visitar desde a separação. Era a primeira vez em meses que eu mencionava seu nome.             - Ei! Tudo bem? - me questionou o guarda
            - Ah.. Sim, está tudo bem. Eu vim ver Finlley. Sarah Sophia Finlley.
            - Tudo bem. Vamos indo.
            Fiquei conversando com o segurança no caminho até você. Ele se chamava Gunter e era casado. Tinha dois meninos e uma menina, que era a mais velha entre os três. Uma pessoa boa. Boa demais para estar naquele lugar. Continuamos a conversa até chegar no local marcado.            
            - Pode me deixar sozinho por um momento? - perguntei ao guarda             - Posso sim. Sabe achar o caminho de volta?
            - Sei sim.
            - Tudo bem então. Vou estar perto do portão.
            Ele me deixou ali, na penumbra da noite. Peguei o isqueiro e o acendi. Me ajoelhei e li as palavras talhadas na pedra cinza que jazia a minha frente. "Sarah Sophia Finlley. 1987 - 2011. Que o céu esteja de portas abertas para você."
            - Hoje fazem 4 meses, Sarah. Quatro malditos meses desde que você morreu e me levou junto contigo. Por que você me abandonou? POR QUÊ!?
            Comecei a chorar alto. A neve estava ficando mais pesada e o tempo ia passando.
            - Eu fumei hoje, sabia? Sei que prometi não fumar mais, mas não me aguentei. E tomei um pouco também. Coisas que eu nunca faço. Só por causa sua. Eu tento esquecer, Sarah. Mas não dá. Eu ainda te amo. E acho que sempre vou te amar.
            Não havia muito a ser dito, então eu me levantei, olhei novamente para o túmulo e segui caminho. Quando cheguei no portão, a neve já estava forte e Gunter me esperava com a lanterna nas mãos.
            - Fez o que tinha que fazer?
            - Acho que sim.
            - Bem, boa noite então.
            - Boa noite.
            Sigo pelas ruas. Não possuía caminho, direção ou rota, e agora isso não é diferente. Não tinha mapas. Apenas andava, apenas ando. Quando percebo eu estava novamente na porta do bar. 01h26. Não. Cansei de bares por uma vida inteira. Além do mais, eu te prometi. Sigo o caminho para minha casa. Está fazendo o frio que nunca fez. Adentrei aquele coração vazio feito de madeira que chamo de lar e me jogo numa poltrona. Sei o que vai acontecer, mas eu nego balançando a cabeça. Não há escapatória. Eu choro novamente, rotina um tanto já antiga. Me lembro do acidente, aquela curva mal feita e do motorista bêbado no outro carro. Morte instantânea. Para ambos. Mas aquele desgraçado que vá para o inferno. Foi ele o bastardo que me fez estar aqui chorando, foi ele que me fez esse fantasma que anda e vagueia pela cidade sem nada para fazer além de deprimir os ambientes. As lágrimas não param de cair. Nunca param. Não até eu cair no sono. Coisa que acontece tão rápido que eu nem sinto acontecer. Durmo. Não preciso entender nada. Esquecer nada. Então, eu apenas sonho com você.

Rosas. Ainda lembro de como gosta delas. Eu sempre sonho com elas. Com você. Dou-lhe um buquê de rosas vermelhas. E de repente elas mudam de cor. Ficam negras. É quando acordo, olho para o lado e percebo que não existe vermelho. Apenas a escuridão nas rosas que te deixei.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Recado

Seja lá quem você for, seja quem seja, apenas entenda.

Chegue. Desmorone. Apareça. Antes de mais nada apareça. Sorria. Me dê uma olhada. Sei que não atraio de primeira. Mas fique ao meu lado. Roube a chave do meu coração com um sorriso, uma palavra, uma ação bondosa, um elogio, um apelido. Meu coração será seu, e quero que guarde a chave que roubou junto com a tua. Junte-as. Una nossos corações em apenas um, que bate com amor e luz. Venha de repente e traga felicidade. Apenas me ouça, me leia, me entenda. Me mande mensagens pelo celular, pela internet ou simplesmente me ligue. Me deixe ouvir sua voz. Não importa se mora longe ou mora na casa ao lado. Apareça. Resolvemos problemas depois. Traga-me aquela esperança que eu havia perdido no caminho até aqui. Saia comigo e dê risadas. Amo risadas. Pareço um cara sério, mas adoro ouvir risadas. Ainda mais de você, seja quem for. Critique minha preguiça, mas faça parte dela. Seja quem é e não ligue para o que outros pensam. Esteja aqui, perto de mim, não fisicamente, mas emocionalmente. Afinal de contas, meu coração é teu. Ilumine tudo em mim, com um fósforo. Uma vela, um candelabro, uma lanterna, um holofote. Uma estrela. Ouça músicas comigo. Partilhe dores comigo, sejam as minhas ou as suas. Seja sincera, verdadeira ao que sentir. Não precisa gostar das mesmas coisas. Luz já é suficiente. E aliás, amor não enxerga gostos; eles apenas são um adicional. Mas fale besteiras sobre o que goste, irei falar também. Me chame do que quiser, apenas mostre que se importa. Entre. Aqueça. Não abandone e me deixe sob os feixes de luz. Quero viajar para longe e você será minha bagagem principal. Sonhe comigo, eleve minha imaginação a um novo patamar. Jogue comigo e se ganhar tire uma com a minha cara. Faça promessas. Indagações. Durma ao meu lado e sonhe os mesmos sonhos. Me tire da realidade, me faça viver uma vida maravilhosa. Seja o sol que ilumina meu dia e a Lua que clareia minhas noites. Seja lá quem você for. Apareça. Entenda.

Fuja da realidade comigo. Segure minha mão enquanto andamos pela areia, molhamos nossos pés na água e olhamos para o pôr do sol.


quinta-feira, 4 de agosto de 2011

E eu não quero que o mundo me veja.


Sabe quando você acorda e pensa “preciso fazer tal coisa”? Isso me aconteceu hoje. Eu acordei e quis ouvir uma música. Apenas uma. Uma música que poderia garantir paz imediata de espírito e, quem sabe, me dar alguma pista do que eu venho procurando. A música é bela e romântica, mas eu não estou ligando para as frases que, geralmente, são enviadas ou escritas por namorados pelo mundo afora. Eu não quero mensagens de amor. Eu quero mensagens que me digam a verdade.

“E eu não quero que o mundo me veja, porque eu não acho que eles me entenderiam”. Estou enterrado de notícias, textos, palavras sem sentidos, frases nulas, parágrafos incompletos e músicas que já não possuem sentido. Tudo em mente. Tudo numa lembrança vaga do que me parece ser outra vida ou outro eu. O que aconteceu nesses últimos dias? É uma pergunta, e boas perguntas possuem boas respostas, ou não possuem nada. Não tenho resposta. Toda a vez que penso eu navego por um mar já navegado, entretanto só vejo névoa me cercando. Eu não sinto o horizonte. Não vejo o céu. Apenas névoa. Tudo coberto de gelo, neve e ventos frios. Ninguém me entenderia agora. Eu mesmo não me entendo. Onde foram parar todas as esperanças e desejos que eu tinha? Em algum lugar. Mas onde? Não sei. Sinto minha mente trabalhando, porém não ouço meu coração batendo. Consegue entender? Eu não. Eu não quero entender.

 “Quando tudo é feito para ser quebrado”. Pô, com isso eu concordo. Nada dura para sempre. Tua vida acaba. As comidas tem prazo de validade e os eletrônicos só duram um momento de sua existência passageira. Avistamos o amor e, antes que percebamos, ele já se foi com a correnteza, com a maré. Tudo se quebra, tudo se divide, todos se separam, todos morrem. Qual é a nossa função então? Viver a jornada, simplesmente para desaparecer no final. O problema é o que usamos de combustível para viver essas jornada. Muitos usam o trabalho, outros usam os amigos e alguns usam os sonhos, maiores do que tudo e todos. Existem aqueles que vivem por vingança, simples conseqüência de um ódio mascarado com bons semblantes ou uma raiva com cara de bom samaritano.

E existe um outro tipo, que vivem no extremo na vida, sempre sendo machucados e vivendo apenas um momento  de suas vidas com felicidade que ultrapassa a de todos. Essas pessoas são as mais difíceis de se conviver e as que mais amam. Elas vivem em função do coração. Eu, infelizmente, descobri que sou uma delas. Ou era. Até um, dois meses atrás eu sempre corria atrás de alguém que pudesse me amar. Corria atrás de pessoas que poderiam gostar de mim sem fazer esforços. Vive pelo meu coração e nunca por mim mesmo. E agora, com o coração estilhaçado, não há nada para seguir. Eu já não o sinto batendo, pulsando vida. Está quebrado e buscando um meio de se reestruturar. Esses últimos meses que se passaram foram extremamente complicados. Não me admira dele estar em péssimas condições agora. Porém, o que sobra a uma pessoa que vive com o coração e somente com ele quando este é quebrado ou morto? Nada. Agora acho que consigam me entender.

“Eu só quero saber quem eu sou”. Quer frase que se encaixe melhor agora? Chegou o momento de tentar saber mais sobre mim mesmo. Gostar de mim. Me amar. Só ai meu coração poderá ganhar forças e resistir mais tempo. Enquanto isso, eu ficarei no vazio de um inverno quente e sem precedentes, que não tem hora certa de parar, nem hora certa de amenizar. Eu vivo sem viver. Me perguntando o que estou fazendo aqui. Me questionando no que eu quero e por quais motivos. Indagando mim mesmo sobre tudo que se passou, sobre todos que passaram e que não irão voltar. Fui sempre abandonado nas horas que eu mais precisei. Obrigado por me ajudarem e me entender.

“E você sangra somente para saber que está vivo”. Acho que não preciso de tanto. Minhas memórias servem de mapa para entender que estou vivo. Eu só quero me entender. Saber quem eu sou. E essa resposta está na ponta da língua, ou dos dedos. Só preciso de tempo para me encontrar, deixar meu coração se curando e lutar por mim mesmo. Com toda a certeza, eu ainda irei continuar vivendo com meu coração. Mas eu não quero mais inutilidades. Não aceitarei o que me imporem. O vazio por gerado por tudo isso. E, pensando bem, acho que entendi. Eu era uma pessoa confiável, que fazia tudo pelos outros sem esperar retorno. Que doava amor simplesmente para se sentir bem consigo mesma. Que buscava a felicidade no contentamento dos outros. Que sempre estava lá para o que der e vier. Que sempre era abandonada quando mais precisava de todos.

Eu era um imbecil. Um lunático apaixonado que caiu feio e morreu. Foi enterrado nas sombras do passado e nesse inverno que o reina. O coração dele fora assassinado a sangue frio, repetidas vezes, e sua mente sofreu uma overdose de pensamentos que nunca eram 100% formados. O lunático morreu. Quem vive agora é apenas um fantasma do passado que tenta encaixar todos os pedaços de sua alma negra como carvão. Eu sou apenas esse fantasma, que não escreve mais para botar algo para fora ou por simples prazer, mas sim para entender o que está acontecendo nele mesmo. Separando idéias. Tremendo no frio. Ouvindo músicas que só agora possuem sentido. Vivendo para encontrar um rumo. Dormindo para sonhar novamente. Digitando por ele mesmo e não pelos outros. Quem dá as cartas é um outro ser, irreconhecível por todos e até mesmo pelo seu fantasma. Ele é vazio, oco e vive no nada. As horas passam e ele não sente fome, sede ou vontade de se afastar de tudo. Vive apenas para se recompor. E tudo o cansa. Ela o cansa. Vocês o cansam. Ele está cansado de se sentir cansado. E agora ele se esconde do mundo. Eu me escondo do mundo.  O mundo não me entenderia. Mesmo se tentasse. Eu não me entendo.

Para quem ficou interessado na música, ela se chama "Iris"