sábado, 13 de agosto de 2011

Entender. Pra quê?


E aqui estou, sentado num bar, tomando algo para me esquentar. Fico pensando em mim e em você. Em nós. No nada. Só estou aqui porque não havia mais lugar para ir. Mais refúgios para me esconder. Não bebo por gostar, só bebo para esquecer de tudo, matar os sentimentos ruins que estão dentro de mim. Já não me importa você, mas o seu efeito na minha vida. E assim eu peço outro copo pro garçom. O pego, tremendo. Viro tudo que estava dentro dele sem me preocupar com efeitos colaterais. Tomo tudo como se fosse um remédio; um analgésico para toda essa dor, que age em mim em todos os locais. Coloco o copo sobre a mesa novamente. Não tenho costume de beber e já estou começando a ficar confuso. Melhor parar. Se eu tomar mais uma eu nem conseguirei sair daqui. Pelo menos, não sem cair várias vezes no chão. Pago a conta e vou lá fora. Acendo um cigarro. Eu tinha lhe prometido que iria parar. E havia parado. Mas cadê você? Olho para os lados e não te vejo. Lembro que foi uma promessa de quando estávamos juntos. Agora faço o que quiser. Dou outra tragada e olho para o céu de inverno. É noite e tudo está mais frio que o normal. A bebida não me aqueceu. A tragada do cigarro não me convenceu de nada. Jogo o cigarro fora e vou andando, cambaleando pelo efeito das doses alcoólicas. Começa a nevar. A neve vai caindo devagar, sem pressa, no meu rosto descoberto do capuz. Sinto os flocos evaporando e virando água entre minha barba. Sempre amei neve. Pelo menos uma coisa que eu amo está inteira. Não mudou. Não desapareceu. Vou andando e passo em frente a sua nova casa. Aqui é mais frio do que em qualquer outro lugar da cidade. É mais triste e cinza. Olho para baixo, em direção ao meu pulso esquerdo. 00h13. Talvez eles me deixem dar uma visitada. Abro o portão e vou seguindo a trilha, com os pequenos prédios de cor de céu nublado cobrindo as laterais. Vou subindo trilha acima e encontro o segurança.
            - Ei, moço! Você não sabe que é proibido a entrada aqui depois da meia-noite?
            - Sabia sim, seu guarda. Mas eu estava passando por perto e resolvi visitar alguém.
            Ele me olhou de cima para baixo. Se eu estivesse mais bêbado, com certeza ele não me deixaria passar. Não foi o que aconteceu.             
            - Certo, certo... Quem você está procurando?            
            Fiquei quieto por alguns segundos. Era a primeira vez que eu iria te visitar desde a separação. Era a primeira vez em meses que eu mencionava seu nome.             - Ei! Tudo bem? - me questionou o guarda
            - Ah.. Sim, está tudo bem. Eu vim ver Finlley. Sarah Sophia Finlley.
            - Tudo bem. Vamos indo.
            Fiquei conversando com o segurança no caminho até você. Ele se chamava Gunter e era casado. Tinha dois meninos e uma menina, que era a mais velha entre os três. Uma pessoa boa. Boa demais para estar naquele lugar. Continuamos a conversa até chegar no local marcado.            
            - Pode me deixar sozinho por um momento? - perguntei ao guarda             - Posso sim. Sabe achar o caminho de volta?
            - Sei sim.
            - Tudo bem então. Vou estar perto do portão.
            Ele me deixou ali, na penumbra da noite. Peguei o isqueiro e o acendi. Me ajoelhei e li as palavras talhadas na pedra cinza que jazia a minha frente. "Sarah Sophia Finlley. 1987 - 2011. Que o céu esteja de portas abertas para você."
            - Hoje fazem 4 meses, Sarah. Quatro malditos meses desde que você morreu e me levou junto contigo. Por que você me abandonou? POR QUÊ!?
            Comecei a chorar alto. A neve estava ficando mais pesada e o tempo ia passando.
            - Eu fumei hoje, sabia? Sei que prometi não fumar mais, mas não me aguentei. E tomei um pouco também. Coisas que eu nunca faço. Só por causa sua. Eu tento esquecer, Sarah. Mas não dá. Eu ainda te amo. E acho que sempre vou te amar.
            Não havia muito a ser dito, então eu me levantei, olhei novamente para o túmulo e segui caminho. Quando cheguei no portão, a neve já estava forte e Gunter me esperava com a lanterna nas mãos.
            - Fez o que tinha que fazer?
            - Acho que sim.
            - Bem, boa noite então.
            - Boa noite.
            Sigo pelas ruas. Não possuía caminho, direção ou rota, e agora isso não é diferente. Não tinha mapas. Apenas andava, apenas ando. Quando percebo eu estava novamente na porta do bar. 01h26. Não. Cansei de bares por uma vida inteira. Além do mais, eu te prometi. Sigo o caminho para minha casa. Está fazendo o frio que nunca fez. Adentrei aquele coração vazio feito de madeira que chamo de lar e me jogo numa poltrona. Sei o que vai acontecer, mas eu nego balançando a cabeça. Não há escapatória. Eu choro novamente, rotina um tanto já antiga. Me lembro do acidente, aquela curva mal feita e do motorista bêbado no outro carro. Morte instantânea. Para ambos. Mas aquele desgraçado que vá para o inferno. Foi ele o bastardo que me fez estar aqui chorando, foi ele que me fez esse fantasma que anda e vagueia pela cidade sem nada para fazer além de deprimir os ambientes. As lágrimas não param de cair. Nunca param. Não até eu cair no sono. Coisa que acontece tão rápido que eu nem sinto acontecer. Durmo. Não preciso entender nada. Esquecer nada. Então, eu apenas sonho com você.

Rosas. Ainda lembro de como gosta delas. Eu sempre sonho com elas. Com você. Dou-lhe um buquê de rosas vermelhas. E de repente elas mudam de cor. Ficam negras. É quando acordo, olho para o lado e percebo que não existe vermelho. Apenas a escuridão nas rosas que te deixei.

2 comentários:

  1. Amei o seu texto
    muito bom como todos os outros
    Tem um selo pra vc lá no meu blog
    está na parte "Presentes"
    Beijos ;*

    ResponderExcluir
  2. que lindo ... chorei mesmo !
    mt emocionante e bacana .. vou esperar uma visita no meu blog também
    sucesso ein ?
    http://pobreshumanos.blogspot.com/

    ResponderExcluir