quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Todas essas verdades


Todos esses momentos, navegantes e tristes, tão sólidos que derretem ao toque suave de uma simples visualização. Todas essas fotos guardadas na última gaveta daquela cômoda de madeira antiga e maciça. Todos os cheiros que flutuam diante mil e um espaços desconhecidos da memória. Todas as imagens esquecidas dentro de todas aquelas fotos. Não há razões aparentes para pode lembrar de tudo e de todos, e mesmo assim eu lembro como se tivesse sido ontem. Ou, quem sabe, duas horas atrás? 

Nesse navio que eu navego, nesse barco que estou, acompanhado, ondulo pela ondas e marés do que seria esse oceano de momentos passados e futuros. Por via da preguiça, cortei atalhos e estraguei minha própria vida. Por via do amor, estraguei corações. Por via da tristeza, arruinei espíritos. E por tudo me sento solitário diante do que seria a discórdia em palavras e sufocação da euforia tão ardente que eu nem sinto mais. Na proa desse barco, navio, eu enxergo tudo o que virá. Lá de trás, vejo tudo o que se foi e o que não existe mais. Afinal, vivo nesse oceano, faço caminhos quebrados e insolentes. Jogo partes de mim e dou cores novas ao azul da água. 

E na vastidão desse horizonte cinza, sem sol, enfrento as poucas verdades que meu coração tende a repelir porque são fortes demais para serem esclarecidas; para serem obliteradas. As poucas verdades que sei que irão me mudar e mudar tudo. A verdade a ver navios. A verdade ignorando a verdade. A verdade nesse grande palco que é o navio que me carrega, que é a vida em si. A verdade sentada num bar jogando truco e fumando um cigarro enquanto fala de garotas e de video-games com os compadres. A verdade atrás de um dragão. A verdade trancada num labirinto mudo e cinza. A verdade que foge e foge e na verdade não possui lugar nenhum a chegar, porque ao chegar em algum lugar ela será  a verdade. A mentira e a inexatidão somem de uma vez; pulam do barco e morrem afogadas, pelo menos por enquanto. Todas essas mentiras consomem, uma por uma, todas as energias desses momentos tão alegres e infelizes. Todas essas verdades poderiam alegrar e, por razões conhecidas e desconhecidas (paradoxo de todas as ideias, motivos e pensamentos idealizados), quem não consegue encontrá-las sou eu. 

Eu que navego. Eu que choro. Eu que rio. Eu que penso em todas as pessoas que tiraram uma foto mental e me guardaram; em todas aquelas que gravaram mentalmente minha voz. Eu que não fumo e pedi um cigarro. Eu que não amo você. Eu que leio. Eu que escrevo. Eu que vejo. Eu que escuto. Eu que sou metal, raio, relâmpago e trovão. Eu que sou metal quente; derreto e te esmago. Todos esses eus, todos esses nós grudados um ao outro formando um único ser viajante. Todos esses momentos, tristes, infelizes e navegantes, tão sólidos que derretem e se deformam com uma simples verdade. A verdade sem cores, a verdade envaidecida. A verdade que derrete, pois tudo que é sólido pode derreter. A verdade que é uma roda, que é o Ka. A verdade é que Blaine é um chato, e isso é a verdade. A verdade que no fim há o mar rubro de rosas. A verdade que, agora, não passa de mentira. E a verdade que agora senta em lugar nenhum me esperando, esperando meu navio e toda a minha frota. Esperando que ela seja libertada. Que sua gêmea irreal seja morta ou jogada aos tubarões. Esperando que, uma vez na minha vida, eu a escolha, pois isso não é mais nada do que a própria verdade.

E que caia o inimigo então.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Passatempo


Acendo outro cigarro e me escondo na névoa cinza que ele forma. Escondo-me da verdade tão infame que você deixou. A verdade que seriamente murchou meu coração e me trouxe a incompreensão. Tento me afastar dos problemas com uma tragada. Suspiro uma fumaça cinza e letal a minha frente. Respiro o mesmo ar infectado. O mesmo ar que, uma vez, você já respirou. É assim que mato tempo: me matando; te matando. Ou pelo menos o que sobrou de você em mim.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Perfeição


Brindem a ignorância com uma salva de palmas. Sim, sim, sim! Eles estão chegando! Não percam a nova atração de hipócritas vestidos a caráter no congresso e dos mentirosos na lona do senado desse circo tão bem formado por imbecis! Sim, sim, sim! Venham conferir mais um exemplo da idiotice do público geral! Vejam o quanto eles são tolos! Ouça suas mentiras! Acredite nelas e os proteja! Mostrem seus votos conscientes para todos! Sim, sim. sim! Acompanhem nossas atrações ao vivo, pela televisão ou nas manchetes do jornal! Confiram as falcatruas e a discórdia! Assistam todos os episódios dessa torcida tão linda que comemora o carnaval! E que grita com gol da Seleção! E que se fodem com seu país! Sim, sim, sim! Vejam os hospitais e as escolas sem fundamento! Admirem esse circo de canalhas tão bem levantado e armado! Me deem mais uma salva de palmas! Levantem suas mãos e orem para que a novela acabe da maneira que vocês tanto sonham! Sim, sim, sim! Mantenham as saídas de incêndio liberadas e os extintores à mão, porque há não-seguidores de nossa religião que querem ver nosso circo pegar fogo! Não podemos deixar eles fazerem isso! Imaginem o quanto de dinheiro que nossa trupe iria perder! E não se esqueçam também de prender os assassinos e ladrões, só que tenham cuidado com eles! Deixem-nos na prisão, enquanto possuem suas refeições diárias e possuem família ganhando pensão! Sim, sim, sim! Digam vivas a sociedade! Gritos de emoção com as notícias do mundo e do cinema norte-americano! Sim, sim, sim! Não amem sua pátria; somente em sábados, domingos e feriados nacionais ou quando passa futebol na televisão! Tomem mais um gole em homenagem ao fanatismo envolvente, e de mal gosto, desses que pensam! Não pensem, meus caros: sigam-me e mostrarei o melhor caminho para tudo e todos! Comemorem com rojões a estupidez humana e a estupidez de todas as nações! Porque somos mais inteligentes, meus amigos de coração! Somos sim! Mais desenvolvidos, mais aculturados! Louvem nossas metrópoles como se fossem santuários! Eliminem as matas e deixem esses otários no palco principal! Virem seus olhos para a beleza do exterior! Bebam, meus queridos companheiros! Bebam e celebrem como se não houvesse amanhã! Pois muito bem, nunca se esqueçam de conferir o espetáculo de amanhã. Prometemos mais e mais ironias e imbecilidades! Reservamos um lugar especial em suas cadeiras para adorarem esse circo! Sim, sim, sim! A trupe de ignorantes é antiga e teremos ainda mais apresentações! Confiram nossos horários e brindem vocês mesmos! Porque não existe nada melhor que um público imbecil para uma trupe de ignorantes! Obrigado pela atenção e repitam o procedimento!