sábado, 4 de fevereiro de 2012

Difícil mesmo é ser

Olá pessoa irreconhecível. Toda a vez que te olho, eu te vejo mais diferente do que no dia anterior, mais próxima da resposta do que anteriormente, mais ousada do que já fora antigamente. Cada vez que olho em teus olhos, eu me perco na margem do castanho, me perco nas memórias de um passado já muito colorido em sépia, nas ondas negras de decepção, solidão e descontentamento. E toda a vez que eu te vejo eu viajo. Eu viajo sem sair do lugar, sempre nas nuvens, sempre com os pés no chão, mas sempre tão distante do que eu poderia estar. 

As verdades estão escondidas em cada ação que faz. Em cada sorriso, seja ele falso ou não. Em cada risada que consegue gerar. Em cada palavra que consegue escrever. Todas as afirmações de quem é e de quem foi. Cada dia diferente, cada dia novo, cada dia um novo alguém continuando o mesmo antigo de sempre, pois cada dia é uma batalha, é uma guerra e a sobrevivência vem sendo complicada.

Cada vez que eu te vejo eu sinto todas estas porcarias. Relembro de amores, de dores, de frescores, de tempos passados, de caminhos errados. Eu penso em coisas novas, em rotas recentes, em amores tão frescos, em novas coisas que me dão refresco no calor infernal que se faz.

Em teus olhos eu vejo a mim mesmo. Sempre tão diferente. Sempre meio sorridente, mesmo num inferno sem iguais. Nunca tão ausente, nunca tão desigual ao que um dia foi. O cabelo está diferente. As marcas no rosto são diferentes. O sorriso, velho, seco, feliz, banal, anormal, tão cálido é o mesmo. Os olhos são os mesmos. A pessoa é a mesma, eu sou o mesmo. Eu sou eu olhando para um reflexo tão pálido, tão diferente, que sempre quer se aventurar de sentimentos, de emoções, de amigos, novos livros, músicas e paixões. Os óculos são novos. O corte de cabelo é novo. Mas a carga é antiga. 

Perante o espelho eu sou irreconhecível. Perante as palavras e as ações, reconheço que minha singularidade física é tão distante quanto sempre foi de quem eu já fui. Pois a cada olhar que eu dou perante o espelho, os olhos refletem tudo que já refletiam e ficam um momento mais cansado das torturas que aquela antiga pessoa tem causado. 

Meus olhos são castanhos, meu cabelo segue o mesmo padrão. O sorriso é simples e tão ocasional. As espinhas são estranhas, nunca vou aceitá-las. A barba é estranha, cresce quando dá vontade. E eu não me importo. Pois este sou eu e eu aceito essa imagem deturpada com prazer imensurável.

Olá, tão estranhamente eu. Espero que a gente se dê bem.

3 comentários:

  1. Meus parabéns. Pouquíssimas vezes vi algo tão bem escrito.
    Você "falou" um tanto parecido com o meu melhor amigo (que mora em outro país e que só vejo de dois em dois anos mais ou menos). Ele me descreve como você se descreveu, com exceção da barba, é claro...rs

    Gostei demais mesmo.

    Beijos

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    1. Obrigado pelos elogios! Esse é um daqueles textos que surgem do nada, mas que no fundo sempre estiveram lá e eram necessários. Espero que as lembranças que causei sobre teu melhor amigo sejam muito boas e alegres, porque distância é sempre complicado.

      Beijos :)

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  2. O título do texto já diz tudo...
    Complexo e denso. Gostei bastante.

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