domingo, 25 de março de 2012

Monólogo à dois


A: Cara, decida logo. Não tenho o tempo todo.
B: Lógico que tem. Na verdade, tem o mesmo tempo que eu.
A: Tá, mas vai logo. Não temos o luxo de perder mais tempo.
B: Fica tranquilo. To trabalhando em tudo.
A: Conheço seu trabalhando. Quando você diz isso é mais ou menos como um "cara, to fazendo nada em relação e, o pouco que eu faço, eu não tenho certeza alguma do que to fazendo".
B: Não tem nada disso acontecendo...
A: Tem sim! Não minta para mim.
B: Não estou mentindo...
A: Está! Para mim, para você e para mais alguém.
B: Olha, mesmo que eu esteja mentindo, não devo nada a ninguém, tudo bem?
A: Não está tudo bem. Você deve algo, pelo menos, à mim! O que acha que está fazendo?
B: Eu...
A: Vamos lá! Responda!
B: Eu não sei! Pronto! Não estou pensando mais. Eu só estou agindo. Instinto.
A: Seu animal. Então vamos lá, já que temos o mesmo tempo, decida alguma coisa agora.
B: Eu não estou preparado para fazer alguma coisa.
A: Não, você está. A única coisa que você tem é medo.
B: ...
A: Medo de tentar de novo, se encontrar de novo. Se machucar, de novo.
B: Olha...
A: Não, dessa vez eu vou falar. Entendi o fato de você querer se distanciar de tudo e de todos. Entendi quando você mudou, quando cortou o cabelo, quando começou a ser uma pessoa distante, diferente e alegre com pessoas que você normalmente nem falaria. Entendi tudo até esse ponto. Mas você não melhorou as coisas. Simplesmente piorou. Cadê o cara que cantava versos de paixão, que escrevia coisas com o coração? Cadê o infeliz que passava mal pelas coisas mais absurdas que afetavam tua alma, mesmo que fosse um errinho imbecil? Eu... Eu sinto falta dessa pessoa. Ela era meio fechada, mas era uma ótima pessoa.
B: Desculpe-me se eu não sou o meu antigo eu ultimamente, mas entenda o meu lado. Eu nunca tinha sido ferido tão mortalmente e eu nunca tinha ferido tanto alguém antes. E repeti o ato mais uma vez! Ninguém consegue ficar normal depois de tudo isso. Eu não me sinto normal. Eu gostei de agir dessa maneira e vivo com um medo que me corrói o sono toda a noite mal dormida. E se eu não conseguir mais amar? E se todas as mulheres forem apenas mais uma qualquer onde eu não encontre nada além de conforto passageiro? Meu medo é absurdo em relação a isso, meu amigo. Absurdamente gigante. E então eu fico conversando com várias ao mesmo tempo e nem eu sei exatamente o que eu quero, quem eu quero e nem se eu consigo sentir algo. E então eu lembro do meu antigo eu, de como ele agia, de como ele amava, de como se sentia. Ele tinha um medo arrebatador, não se mexia, não fazia nada. Mas quando fazia, ele conquistava. Ele se focava em um espírito, em uma alma e se deixava levar. Ele simplesmente era aquilo que eu sempre quis ser e que só percebi que era depois que já não era mais aquilo que outrora fora.
A: Amigo, estamos nessa juntos. Estou aqui do teu lado. Somos dois, mas somos apenas um. Estou apenas te alertando que alguma coisa precisa ser feita nesse teu coração. Está doendo demais e ficar lendo, fazendo piadinhas e nem escondendo mágoas vai adiantar em alguma coisa. Você tem sonhos estranhos, perde, muitas às vezes, a fome, treme diariamente, mente todos os dias quando levanta. Precisamos de uma cura para você, mas, antes, você tem que decidir o que quer da vida. Quer amar?
B: Quero.
A: Ótimo. Então ame. Se concentre. Escreva, cante, chore. Entretanto, se concentre. Ame com todas as forças que puder. Não se controle.
B: Tudo bem.
A: Quem te chama a atenção?
B: Tem algumas. Só não sei se alguma realmente conseguiria chamar a atenção de que eu preciso.
A: Bem, vá atrás daquela que achar que é a tal. Mas lembre-se, isso é um diálogo, mas é um monólogo. Eu sou você.
B: E você sou eu. Somos duas partes do mesmo ser.
A: Sim. Está na hora de resolver os problemas.
B: Está na hora de viver a vida.
A: Está na hora de seguir em frente.
B: Olhando para atrás sempre que pudermos.
A: Prestando atenção nas placas.
B: Nos sinais.
A: Nos encontros e desencontros.
B: Em tudo.
A: Pronto para enfrentar a antiga estrada?
B: Um pouco. Ainda tenho medo.
A: Temos que viver com ele mesmo.
B: É.
A: Vamos seguir juntos.
B: Tudo bem. Vamos em frente então.

E as palavras ecoaram pela mente. Fizeram barulho. Apertaram as teclas. Bagunçaram as folhas. Gearam de frio. Trouxeram uma dor de cabeça e simplesmente seguiram em frente para um lugar melhor.

Um comentário:

  1. Amei esse seu "monólogo". Me deu um tapa na cara, pois me senti na pele dele, e acho que necessitava disso...
    ;}

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