sexta-feira, 2 de março de 2012

Rayon de soleil


É estranho pensar que escrever é seu jeito de se salvar e quando tenta se salvar você não consegue fazer aquela coisa que te salva, que é escrever. Por tempos as emoções se acumulam e, de uma maneira ou de outra, veem saindo desconfortavelmente de meu ser, de minha alma e daquele coração que já está arrebentado.

Essa é outra tentativa, talvez em vão, de tentar esclarecer algo comigo mesmo e algo com mais alguém. É hora de viver a vida da maneira que havíamos combinado e tanto nos afeiçoado. Dessa vez eu pego o mesmo machado que talvez você queira me matar e irei matar os antigos medos e melancolias tão fundas dentro de mim mesmo. Dessa vez espero que as palavras me acolham e me salvem. 

Mas, para dizer a verdade, eu nem sei o que escrever exatamente. São tanto dias, tantas vergonhas, amores, ódios, rancores, temores, erros. Quando acordei eu só queria escrever sobre uma coisa, uma luz distante no topo da colina mais verde. Agora que as palavras fluem delirantemente dos meus dedos, vejo que há tantas coisas para dizer que eu somente fico aqui, digitando no vazio, escrevendo nada que realmente seja salvador. E nem que essas palavras me salvem, que salvem alguém, sei que qualquer coisa que lerem das frases e orações a seguir serão, para alguém, alguma droga, algum remédio. Perdoem-me pelo mal hábito de não escrever sucintamente e nem alegremente. As palavras são apenas reflexos do que é dito e sentido, e, algumas vezes, elas gritam por salvação.

Gostaria de saber se alguém, de fato, já amou com tanto impeto, com tanta força de vontade, com tanta paixão, que mesmo depois de discussões, de brigas, de lágrimas, de vontades esmagadoras de querer matar o outro, a solidão se abate e você lembra que na verdade era feliz. Há aquele ditado que diz "precisamos perder algo para entender o seu valor". Não que eu quisesse te perder, é claro. Eu fui fraco, covarde e muito insolente em todas as relações que nos uniram. Eu que te procurei. Eu que te fiz sofrer e acho que mereço um pouco do sofrimento que guardo aqui no peito. 

Com amigos, eu sei que se me abrir totalmente, mais coisas vão escapar, como quase escaparam com essa tentativa única de salvar apenas uma coisa, que é o que realmente necessito. Essa solidão, esse mal estar, mal viver, é péssimo, nem um pouco egoístico e, desnecessariamente, matador. A música se torna o chefe, as palavras, nem que não sejam suas, acabam virando suas orações e preces e o silêncio, na escuridão, com você e apenas você, se torna seu melhor amigo, ou sua amante. Sua paixão. São nesses momentos que fantasmas do passado, correntes que já pensava estar quebradas, me prendem novamente, buscam meu pescoço, me enforcam e me fazem navegar em águas passadas, quando uma das frases finalmente me disse que algo mais estaria por vir. "Estamos no mesmo barco".

Sua vontade e caridade eram temores aos meus olhos lacrimosos e ao meu ser que tentava se recuperar de tantas falhas e cortes. Sua luz era forte, seu sorriso era iluminado e, por dias, semanas, me tiraram do buraco. Sem sua luz eu me perdi, e nunca expliquei o exato porquê, a exata ignorância de minha parte ao acreditar que estive fazendo as coisas certas para magoar o menor número de pessoas possível. E a única explicação plausível é a mais difícil de aceitar. Eu errei, e ninguém sabe como é complicado dizer isso, nem que seja num texto. 

Eu errei, eu errei, eu errei. Nossa, fica tão claro as coisas quando você realiza que sua vida, sua existência nem sempre é exatamente aquilo que acha que vai ser. A vida dá essas voltas, é uma vadia por si própria e se apropria de suas próprias dores para continuar a trajetória, já que o tempo não para, mas seu, ou meu, coração, sim. 

Eu errei ao dizer tudo aquilo que eu não deveria. Errei em ser frio. Errei em não ser eu, em ser imbecil, em ficar confuso, em ser um desgraçado, um maldito e até acho que devo merecer a porra do machado. Mas eu disse que o tempo era a melhor coisa que eu precisava, era meu remédio, e que ficando sempre atento a luz, eu me perderia na minha própria insanidade e na minha própria escuridão.

E agora, sei que me evita. Amizade entre nós? Quem queremos enganar, mas nós mesmos? Eu digo que a escuridão findou tão forte que apenas luz é o que me sobra. Luz do sol ainda. Mas você, não sei se isso é a verdade ou é apenas ignorância de minha parte, de minha majestade errante e nem um pouco graciosa, sofre sequelas tão fundas quanto as minhas e sua escuridão não desaparece, mas te engole e te inverte e me mata a cada noite mal dormida, em cada pesadelo sonhado, todos os dias e todas as noites, mesmo contra a vontade, mesmo contra o instinto, mesmo contra aquele fio sentimental que ainda nos deve unir de uma maneira ou outra. 

Esse fio, essa corda, arrebentou no lado mais forte. Eu era aquele que aguentava trancos e barrancos e sempre fiquei firme, mesmo perante o pior dos inimigos. Invertemos dessa vez, porque eu abandonei nosso navio um pouco cedo demais. E eu, de certa forma, me arrependo disso, porque eu não queria te deixar. Mas eu precisava. De verdade. Com você as coisas eram sempre simples. Nunca quis complicações contigo, sempre quis o simples, o verdadeiro, o natural. Eu não poderia ter nada disso sabendo que meus ferimentos poderiam alimentar a destruição do fio. 

E, quem sabe, então não podemos simplesmente seguir em frente? Não. Acho isso impossível e por incontáveis vezes já pensei em deixar tudo, você, para trás. Eu não consigo. Sempre volta para você, talvez porque eu tenha acertado logo de cara ao te procurar e só fiz merda no meio tempo. Ambos erramos, eu sei disso e você também deve saber, mas quando olho para o meu quarto, leio os textos, revejo coisas no meu celular e ouço aquela música que eu havia dito que me lembrava de você todas as vezes que escutava, eu simplesmente penso em não te esquecer e simplesmente desistir dessa vida rotineira, sem novidades, desse desapego, dessa maravilha, para viver contigo, nem que seja por uma hora. 

Não. Não estou em desespero e você, garota de olhos claros e cabelos cor do sol, sabe disso. Minha salvação é você e espero que, mesmo que nada aconteça entre nós, o fio seja restabelecido, nossa união, nosso sentimento puro, simples e complicado, mas recíproco. Eu espero que no final do texto, leia ou não, a salvação chegue para algum de nós. 

Eu lembro de tudo. Eu lembro da promessa e de datas. Eu lembro de temores, de melancolias ditas no chão de madeira da minha casa por uma mensagem de celular. Eu lembro de seu nome completo, de sua data de aniversário, do nome de sua cidade. Lembro de seu apelido e a promessa de nunca dar ele para mais ninguém. E lembro dos momentos que passamos juntos, tão distantes um do outro, esperando que um dia o mundo resolvesse nos unir. 

Como eu havia dito naquele mesmo texto que tu leras: "Me pergunto se estou pronto para escrever sobre você. Será que estou? Já demorei demais para descrever tudo o que passou entre nós. Tempo demais. Mas vamos tentar. Uma tentativa. Se der errado, é só tentar de novo. Por você vale a pena fazer tudo de novo."

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