segunda-feira, 5 de março de 2012

A única verdade


Duas semanas atrás a vida perdia parte de seu sentido. Perdia parte de sua luz, de sua realidade e de sua existência. Aquele sufoco começava na hora que eu acordava e ia até a hora que eu dormia. Era continua, interminável. Era como se tudo, e tudo mesmo, perdesse o real valor de existir. Como se as músicas mais tristes ganhassem mais sentido e as felizes perdessem tudo o que tinham. Acordar não era simplesmente aquela sensação de viver a vida, vencer a preguiça e levantar da cama. Era abrir os olhos, ver o teto do quarto e querer voltar a dormir. A voltar a sonhar. Os sonhos eram muito melhores. Os pesadelos, algumas vezes, eram melhores.

Uma semana atrás o tempo era completamente perdido. Ler era sem sentido, algo pouco concreto, algo imoral. Escutar as velhas canções virou um ritual para me habituar a própria dor, a própria solidão, a própria miséria e repugnância do meu ser, cada vez mais cadavérico, sem vida, sem luz, sem amor. Os olhos alheiros julgavam da maneira que queriam julgar e nunca sequer perguntaram se estava bem de verdade. O egoísmo é algo fascinante e só percebemos o quanto ele é devastador quando sentimos seus efeitos sob a nossa pele.

E dias atrás eu consegui respirar aliviado. Acordar hoje, mesmo com sono, fazer prova de química, ir no odontologista. Tudo isso, todas essas coisas sem prazer me deram prazer. Eu sorria, eu falava, eu conversava. Eu era, finalmente, o ser habitual e desconhecido que eu sempre quis fundir. A proximidade sentimentalista com o toque de coragem e bravura que sempre quis ter. O medo foi deixado para gavetas mais antigas. O mar parece mais claro. A verdade, aquela mesma que se senta solitária, em lugar algum, esperando ser encontrada, finalmente sorri, acena-me, brilha-me. A verdade a ver navios. A verdade perdida no labirinto. A verdade morta por um machado. A verdade que jogava e bebia num bar. A verdade absoluta, escondida, achada. A verdade que sempre foi a verdade, que sempre estivera à minha frente enquanto eu seguia bússolas que me faziam me perder mais em outros pensamentos, em outras ilhas, em outros sentimentos, em outras verdades. Hoje o inimigo cai. A máscara cai. O céu se abre. Todas essas verdades, derradeiras, andantes, nômades, que nunca saíram do mesmo lugar. Todas essas verdades que resolvi enxergar. Todas essas verdades que, hoje, eu resolvi aceitar. 

E outra verdade é que a maré abaixou. Vou viajar por mares de nuvens, sonhos ilógicos, pontes no céu. Mundo, aqui vai o novo, e velho, eu.

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