sábado, 16 de junho de 2012

Imagens cinéticas, amor em pedaços e arte. Pura arte.

O problema da vida é que ela não é igual à um filme.

Os filmes terminam, em sua maioria, em finais felizes onde todos ou choram ou alargam um sorriso igual ao do Coringa. Eles também possuem cortes. Um cena pode ficar esteticamente linda num filme porque há cortes, enquanto na vida tudo é consecutivo, relativo e progressivo. A ideia de você falar uma frase de impacto, virar as costas e ir embora é fantástica em filmes, é cinematograficamente aceitável, entretanto, na vida real, você não tem essa oportunidade, porque depois de virar as costas, você tem que continuar andando e seguindo em frente, o que poderia ser a próxima cena ou não. A próxima cena poderia ser a consequência de sua fala para tal pessoa que você deu as costas, e mesmo assim, existem coisas no meio que são eliminadas do visual final de um filme. Na vida você vai continuar andando, vai fazendo outras coisas e esperando que tudo dê bem para você no final.

Outro ponto que tornam os filmes melhores são as imagens que existem além das que você possui de você mesmo e dos seus pensamentos. Em um filme você consegue ver o que todos os personagens estão fazendo ou sentindo, enquanto na vida real você só tem duas câmeras: teus olhos. O que você vê e o que você sente de verdade só é visto e sentido por você. Nada mais e nada menos do que isso. Então, vamos exemplificar.

Você está no aeroporto de Florianópolis. Verifica os horárias e percebe que as pessoas já estão se dirigindo para a entrar no avião que vai te levar para São Paulo. Então você levanta, pega suas malas e segue em direção norte enquanto todas as pessoas passam por você e você passa por elas, sem uma olhar na cara uma da outra. Ninguém se importa afinal que você esteja com os olhos vermelhos, quase sangrando de tanto chorar e que ande como se a morte estivesse te segurando mais um pouco, como se nem ela te quisesse por enquanto. 

Você continua andando e aquele desgraçado aparece atrás de você, há alguns metros de distância, talvez 5 ou 6 metros, e grita teu nome. Você estanca no lugar, largas todas as malas no chão, com delicadeza, e vira o corpo 90°. Não 180°, para ficar cara a cara com ele, mas 90°, o que te deixa numa situação agradável, já que você não olha para ele diretamente e existe uma maior facilidade de escapar da tortura que será aquilo rapidamente.

Antes do desgraçado falar, você já sabe porque ele veio. Ele foi atrás de você para te julgar e dizer coisas que você tecnicamente já sabe, só não quer admitir porque sabe que vai sofrer mais ainda do que já sofreu. Nesse momento, você imagina como foi um desgraçado com ela, em como quebrou o coração dela e sofreu pelo próprio sofrimento dela em relação a você. Então, você tentou por meios quase impossíveis conversar com ela e conseguiu estabelecer um relacionamento maravilhoso com ela, ou pelo menos era assim que você imaginava. Você, como o quebrador de corações que nunca imaginou ser, quebrou o coração dela e ela, mesmo não sabendo disso, morria para poder te fazer o mesmo ou pior. Quando descobriu, ela tinha arranjando um novo alguém na vida dela, e esse alguém agora falava com você no aeroporto enquanto você tentava não pensar em mais nada além da dor que causara a si mesmo e à ela. 

O desgraçado do namorado dela não para de falar sobre você, ela e ele. Seus ouvidos captam o que ele quer dizer e sintonizar sentimentos e vergonhas em teu espírito. Seus olhos sintonizam o leste, enquanto ele olha para o norte, para você, falando e gesticulando em voz grave e atos rudes e grosseiros, falando com as mãos, como um italiano perfeito. 

Você conta o tempo. 1, 2, 5, 15, 20, 35 segundos. Não, 3 minutos e 23 segundos de discurso nocivo e destruidor. Cada palavra que aquele desgraçado falava era tido como uma bala de canhão em direção ao teu coração. Cada frase não te fazia pensar; fazia teu coração chorar. Suas tentativas babacas de tentar impedir o sangramento incolor dos teus olhos são realmente babacas e uma lágrima sai do seu olho esquerdo, coisa que ele não vê. Teu coração começa a romper aos poucos, falhas começaram a aparecer e você começa a respirar cada vez mais rápido, suas mãos começam a tremer, sua pulsação aumenta rapidamente e pulam partes até que você sinta que todo o mundo é dor. É quando sua mente racional termina de contar o tempo e você percebe que o discurso acabou. Você pega as malas, coloca-as em seus ombros e carrega uma delas na mão direita. Você vira novamente em direção ao norte, dando as costas mais uma vez para ele. De repente, como a verdadeira fonte de toda a beleza da ação, você vira seu corpo mais uma vez, com todas as malas e com lágrimas saindo de seus dois olhos, sem ser ainda um 180°, apenas um 135° ou um pouco mais, olha diretamente para ele e diz apenas o seguinte:

 - Eu tenho apenas três palavras para você...

Você dá as costas novamente para aquele ser que sua amada escolheu para tomar teu lugar e dá um tempo em que sua mente calcula como menos de 4 segundos. Qualquer frase de 3 palavras ficaria ótima agora e seria de efeito, seria esteticamente linda. "Eu a amo", "Eu a odeio", "Eu te odeio", ou, se realmente preferir, "Vai se foder", o que é realmente libertador para a tua alma sofredora. Ele deve estar pensando em todas essas frases nesse mesmo instante, mas você escolhe aquela que você acha que seja a mais verdadeira depois de 3 minutos e 23 segundos, que seriam cortados num filme, de palavras certeiras e negativas. Você para de andar, com o corpo em direção ao norte, vira a cabeça num ângulo de 45° e diz as três palavras.

 - Eu me odeio.

Agora sim, isso foi uma belíssima cena. O ódio, o amor, a luta interna. Mas isso não é um filme, então você continua seguindo, tuas duas câmeras te guiando pelo caminhos enquanto o desgraçado continua com cara de babaca, estático feito uma pedra, olhando em sua direção. Você não sabe disso, mas quer imaginar que isso seja verdade. Consegue ver o reflexo a partir de um pequeno espelho redondo em um dos cantos da sala do aeroporto e comprova que a frase foi realmente certeira, além de não ter sido mais um clichê. Você não gosta de clichês.

Você dá seu passaporte, passa pelo check-in, passa por tudo e se senta na poltrona 22 em direção a janela às 19h23. O voo está marcado para as 10 para as 20h, o que te dá margem de tempo para imaginar tudo o que aconteceu.

E pensando em toda a cena você repara que se fosse um filme, toda a cena seria cortada e haveriam pelo menos duas câmeras, uma centrada em você e outra centrada no desgraçado. Tua lágrima inicial seria vista e todos veriam a reação do otário depois das três palavras que você disse a ele. Tudo cinematograficamente belíssimo, como um excelente filme de drama. Então, captariam uma imagem de você dentro do avião, olhando pela janela para as cidades que passavam enquanto voltava não para São Paulo, como a maioria imaginara, você trocou de passagem e apenas dois amigos seus sabem que você está indo para Curitiba. 

Enquanto isso, você não sabe que as palavras que você falou eram as mais corretas para aquele momento e que sua amada estava sentada no carro esperando o desgraçado voltar e contar o aconteceu. Depois dele contar tudo, ela resolveu ligar para seus amigos e perguntar para onde você estava indo. 3 deles disseram São Paulo, 2 deles disseram Curitiba. Era uma questão de chute, uma questão de sorte, então ela decidiu abandonar o namorado, entrou no aeroporto e comprou uma passagem para Curitiba para o voo que iria sair às 20h40. Pediu para os amigos enrolarem você quando chegasse na cidade para dar tempo dela chegar e te impressionar, porque era agora a vez dela pedir desculpas.

Mas você não sabe disso. Você não sabe que vai dar tudo certo no final porque você não sabe o efeito que teve aquelas três palavras. A cena, que agora são cenas e ocupam quase todo o fim do filme, não o teu presente, e o tempo continuam correndo, enquanto você sofre e outras pessoas estão lá para te deixar feliz.

Esteticamente falando, o fim desse filme é melhor, mas sentimentalmente falando, a vida tem muito mais a oferecer e esse é um problema que não precisa ser consertado, porque você está sentando no avião, olhando para as cidades e pensando apenas em como aquela cena toda no aeroporto seria belíssima vista por outros olhos e editada e a mulher que você mais ama também pensa nisso e pensa em você e em como colocar um sorriso na tua cara será um excelente...


The End.

Um comentário:

  1. Devo agradecer pela síntese maravilhosa que acabei de ler. Fiquei aqui me perguntando se alguma das duas partes - a da vida e a do filme - tem vantagem sobre a outra... Sim, seriam maravilhosas aquelas cenas épicas, mas também que graça tem ver tudo de todos os ângulos assim, de uma vez, não é mesmo? A graça contida no fime é justamente ser um espectador, um elemento que observa a tudo e não chega a ser afetado pelos acontecimentos - se bem que é tão fácil eu me acabar de chorar em certos filmes... - já a graça da vida é justamente, aprender a descobrir o roteiro às cegas - as vezes dando uns tiros no pé, fazer o quê - e se divertir. Enfim, esse lenga-lenga todo foi só pra dizer que eu gostei mesmo do texto.

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