quarta-feira, 25 de julho de 2012

Sobre escrever e ecos


Palavras são ocas
Mas cheias de ecos,
Gritos antigos
Distantes, como sempre são.

Não possuem voz
Nem razão
Apenas um fluxo
Que ecoa no coração.

Palavras são ocas
Cheias de recortes,
Cada um escondido em uma letra,
Cada letra, um universo em expansão.

Não possuem cheiro
Nem autorização
Elas apenas entram
E te fazem perder a direção.

Palavras são ocas, famintas, mudas e silenciosas
Possuem memórias antigas, recortes, gritos, nostalgias
São incontroláveis e quem as controla devia ter o mundo a sua mão:
Palavras são ocas, mas o coração não.

Feliz dia do escritor para todos aqueles que gritaram sem gastar as cordas vocais, que lembraram sem voltar ao passado e que amaram apenas escrevendo, um recorte de cada vez.


sexta-feira, 20 de julho de 2012

Sorria, por favor

Bebia como um condenado. A mulher o largou. Perdeu todos os dentes antes do 30 anos. A família não o quer. Veio parar aqui em outra família, a minha, acolhido por minha vó, talvez por pena, talvez para preencher um vazio em sua própria vida. Quase ninguém na nossa família o suporta: ele passa dos limites naturais. Os únicos que, aparentemente, o toleram, e isso em parte, são a minha vó e eu. Ele já foi embora da casa dela, ficamos anos sem vê-lo. Ele voltou e ficou ai. Ele tem 83 anos e faz aniversário no dia do amigo, ou seja, hoje. Por ventura, me lembrei dos meus amigos e esqueci completamente de seu aniversário.

Então, quando fui até minha vó hoje, ela me disse em tom de segredo:
 - Dê os parabéns a ele, mas nem precisa cumprimentar, nem nada disso.
Pensei comigo mesmo: "Parabéns?". E falei em voz alta, mas baixa: 
 - Nossa, é aniversário dele. Meu Deus...
Eu entrei na casa dela e ele estava lavando a louça. Entrei e o vi de costas e pensei: esse será um dos momentos mais tristes da minha vida; tenho certeza disso. 
Gritei "Feliz aniversário!" e ele se virou, com um meio sorriso e um olho com formação de lágrimas. 
 - Espera um instante. Deixa eu secar a mão.
Passou-se alguns segundos até que ele me desse a mão e, contrariando o que minha vó disse, eu a apertei, olhei em seus olhos, verdes e com uma formação de chuva devastadora, e disse:
 - Feliz aniversário, sério. De verdade. 
 - Muito obrigado - ele respondeu, dando um sorriso. 
Fiz o que tinha que fazer na casa da minha vó e voltei para a minha. Cheguei para minha mãe e perguntei a ela:
 - Sabia que ele fazia aniversário hoje?
 - Não. Você deu os parabéns? - ela me perguntou.
 - Lógico.
Ela se sentiu péssima em não lembrar e ligou para lá, lhe desejou feliz aniversário com um ânimo espantoso e até falso, disse a ele que era tanta correria que tinha até esquecido. Ela desligou o telefone e falou:
 - Tava até chorando, tadinho.

Eu não aguento. As pessoas às vezes são canalhas, elas bebem, elas fumam, elas magoam, mas esse velho de 83 anos me fez me sentir péssimo comigo mesmo. Ele não deve ter amigos o suficiente para lhe dizer um feliz aniversário. Ele depende dessa família estranha que o acolheu. E esquecemos. Não tem bolos, presentes, pessoas ligando o dia inteiro para lhe dizer que sente falta. Duvido que sua própria família tenha ligado para ele. Tudo isso só pode ser irônico: nascer no dia do amigo e não ter ninguém com que passar o aniversário. Eu escrevo isso com peso extremo na consciência, com essa coisa que eu chamo empatia e com os olhos envoltos de lágrimas, e isso não é misericórdia, é humanidade.

Todos nós merecemos ser felizes, porra. 

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Maços



Ele havia entrado na padaria para comprar um maço de cigarros, mesmo sabendo que ela não vendia e que nem tinha dinheiro para comprá-lo.
 - Por favor - disse ele para a vendedora do balcão, - um maço de cigarros.
 - Senhor, não vendemos cigarros - respondeu a mulher atrás do balcão.
 - Mesmo assim, eu gostaria de comprar um maço de cigarros.
 - Isso é uma padaria, não vendemos cigarros.
 - Vendem sim que eu sei. Vamos, por quanto você me venderia?
 - Senhor - suspirou a mulher, - não temos cigarros aqui. Compreende?
 - Não?
 - De maneira alguma.
 - Que absurdo! Todos os lugares deveriam ter cigarros.
 - E por que você diz isso?
Ele olhou para trás, em direção a rua, colocou as duas mãos no bolso e tirou um papel amassado de um deles.
 - Por favor - disse ele. - Leia o que está escrito nesse papel.
A mulher pegou o papel, com receio, desamassou-o o suficiente para conseguir entender o que estava escrito e portou-se a dizer em voz alta:
 - “Aqui, na rua, eu vi uma delicada mulher, linda como o brilho de uma lua cheia, andar. Eu, estonteado pela beleza singular e rara dela, a persegui como um sonho de verão. Ela nunca olhou para mim, mas eu sempre tive a oportunidade de vê-la, de ver aqueles olhos de cor azul como o céu e com tantos pecados quanto possíveis. A persegui por 26 dias, contando os domingos, até o dia que me atrevi a lhe falar. Ela possuía uma voz de seda, delicada e suave, pronta para esmagar meu coração com veludo. Ela retirou um cigarro de sua bolsa, o acendeu vagarosamente e me ofereceu um. Aceitei sem pensar duas vezes, embora eu não fumasse. Ela me disse que todos deveriam fumar. Perguntei para ela, por que, e só o que eu vi foram os dois olhos dela virando para mim, com um ar angelical, e o som de uma risada leve, de outro mundo. Ela respondeu com a seguintes palavras: “Quando o amor não serve de vício, porque mata e esmaga, o cigarro é um excelente apaziguador de corações”. Perguntei-lhe, “por que então não a bebida?”, e ela me respondeu “bebida? Ela vícia, e mata, e te faz perder o sentidos.” - a mulher deu uma pausa, olhou para ele, que fez sinal para continuar - E ela continuou: “deveria haver cigarros em todos os lugares”. Novamente, lhe perguntei “por quê?”. Sua resposta, que nunca esquecerei: “Quando a vida dá uma trégua, é hora de fumar. É hora de matar a dor, de esquecer a dor. O mundo precisa de cigarros. O mundo precisa de amor.”
 - Ótima leitura - disse ele. - Pode parar aí mesmo. Deixe-me te perguntar, você fuma?
 A mulher, esbabacada pelo o que havia lido, demorou a responder.
 - Sim. 
 - Você ama?
 - Sim.
 - Com que frequência?
 - Como assim?
 - Quando você se toca que está amando?
 - Eu.. não sei.
 - Entendo. Então, você tem cigarros, não é?
 - Tenho?
 - Poderia me dar um?
 - Claro.
A mulher se afastou, pegou um cigarro e deu-o para ele.
 - Muito obrigado.
 - Sabe, você poderia ter ido na loja do lado, lá eles vendem maços de cigarro.
 - Eu sei. É que eu não tinha dinheiro e precisava amar um pouco.