sexta-feira, 20 de julho de 2012

Sorria, por favor

Bebia como um condenado. A mulher o largou. Perdeu todos os dentes antes do 30 anos. A família não o quer. Veio parar aqui em outra família, a minha, acolhido por minha vó, talvez por pena, talvez para preencher um vazio em sua própria vida. Quase ninguém na nossa família o suporta: ele passa dos limites naturais. Os únicos que, aparentemente, o toleram, e isso em parte, são a minha vó e eu. Ele já foi embora da casa dela, ficamos anos sem vê-lo. Ele voltou e ficou ai. Ele tem 83 anos e faz aniversário no dia do amigo, ou seja, hoje. Por ventura, me lembrei dos meus amigos e esqueci completamente de seu aniversário.

Então, quando fui até minha vó hoje, ela me disse em tom de segredo:
 - Dê os parabéns a ele, mas nem precisa cumprimentar, nem nada disso.
Pensei comigo mesmo: "Parabéns?". E falei em voz alta, mas baixa: 
 - Nossa, é aniversário dele. Meu Deus...
Eu entrei na casa dela e ele estava lavando a louça. Entrei e o vi de costas e pensei: esse será um dos momentos mais tristes da minha vida; tenho certeza disso. 
Gritei "Feliz aniversário!" e ele se virou, com um meio sorriso e um olho com formação de lágrimas. 
 - Espera um instante. Deixa eu secar a mão.
Passou-se alguns segundos até que ele me desse a mão e, contrariando o que minha vó disse, eu a apertei, olhei em seus olhos, verdes e com uma formação de chuva devastadora, e disse:
 - Feliz aniversário, sério. De verdade. 
 - Muito obrigado - ele respondeu, dando um sorriso. 
Fiz o que tinha que fazer na casa da minha vó e voltei para a minha. Cheguei para minha mãe e perguntei a ela:
 - Sabia que ele fazia aniversário hoje?
 - Não. Você deu os parabéns? - ela me perguntou.
 - Lógico.
Ela se sentiu péssima em não lembrar e ligou para lá, lhe desejou feliz aniversário com um ânimo espantoso e até falso, disse a ele que era tanta correria que tinha até esquecido. Ela desligou o telefone e falou:
 - Tava até chorando, tadinho.

Eu não aguento. As pessoas às vezes são canalhas, elas bebem, elas fumam, elas magoam, mas esse velho de 83 anos me fez me sentir péssimo comigo mesmo. Ele não deve ter amigos o suficiente para lhe dizer um feliz aniversário. Ele depende dessa família estranha que o acolheu. E esquecemos. Não tem bolos, presentes, pessoas ligando o dia inteiro para lhe dizer que sente falta. Duvido que sua própria família tenha ligado para ele. Tudo isso só pode ser irônico: nascer no dia do amigo e não ter ninguém com que passar o aniversário. Eu escrevo isso com peso extremo na consciência, com essa coisa que eu chamo empatia e com os olhos envoltos de lágrimas, e isso não é misericórdia, é humanidade.

Todos nós merecemos ser felizes, porra. 

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