sábado, 29 de setembro de 2012

Sobre caminhos, verdades, mentiras, mares e fins


Do ponto mais indulgente ao mais ridículo dos acontecimentos em plena chuva de primavera com dia ensolarado. Das chuvas ao sol. Do dormir ao amanhecer na praia. Dos traços que deixei ao ponto final que poderia ter sido uma vírgula. De uma verdade, uma mentira dita em segredo para que ninguém saiba. Uma mentira a mais, uma oração a menos no coração da verdade, que ecoa infinitamente com risadas e fontes do além. Talvez um último momento de depressão, talvez um último momento para retomar o fôlego, matar as dúvidas e andar sem rumo. Andar, não. Navegar.

Aqui, do ponto mais alto e mais baixo dos mares, as verdades são intrínsecas às mentiras das pessoas que uma vez passaram à minha frente para dizer olá. O sol, cercado de nuvens cinzas como o mesmo pó que um dia esteve em minhas mãos, brilha com uma intensidade primitiva; ele não brilha, para ser mais realista, ele ofusca, cega, mata e, por consequência, traz mais vida do que nunca. Pelo brilho da chuva que se aproxima, eu vejo os olhares de todos aqueles que me cativaram e já não são mais quaisquer uns; são únicos e são minhas responsabilidades. Eu vejo o pesar dos meus próprios olhos cansados de tanta falta de virtude, de tanto desespero, de tantas mentiras, de tanta falta de amor e de verdade.

No meio do trajeto, uma esperança e, de repente, chove o caos mais uma vez. O céu se fecha com uma pequena abertura por onde a luz continua matando: matando as escuridões dos corações dos homens. Aquela é a esperança no meio desse nosso mar que sozinho, acompanhado, navego no meu barco, navio. De todas as verdades, a única que não posso mais ignorar. De todas as mentiras, a que mais deve ser obliterada. Um relâmpago e um trovão tinem quando a noite chega, mas sempre amanhece no finito centro da existência. Grandes esperanças cercam o arredor, o horizonte trêmulo de tolo contentamento e de grande horror em virtude de uma nova etapa desvencilhada em sua vidas efêmeras. Ao pior de tudo, apenas uma grande deixa para o recomeço: o próprio fim.

O fim do labirinto. O fim da viagem em mares desconhecidos. O fim do amor de mentira. O fim da verdade do ódio. O fim de todos os clichês para que tudo seja apenas mais alguma coisa além de algo que já era. O fim da negação. O fim da omissão. O fim de tudo e de todos. O fim do bar, que pegou fogo. O fim do dragão, que morreu cortado. O fim do palco, que foi enterrado pelas lágrimas de um deus em melancolia. O fim dos ares e dos céus escarlates, produtos de sangues alheios e independentes. O fim de um labirinto cinza, mudo, que é tão infinito e espetacular quanto a própria dimensão da minha vida. O fim de uma vida. O fim de uma era. O fim do final, o final dos fins, a espera espetacular e a resolução de uma tormenta de mentiras e verdades. De tudo o que sobrou, a paciência para seguir em frente, as botas rasgadas, as cicatrizes nas mãos e rosto, a fé de dias melhores e com chuva, o amor cativante de olhos verdes, castanhos, azuis, esmeraldas, brilhantes, teus, um dia meus. O que sobrou é uma vida. Já não há mais folhas brancas nesse caderno, pelo menos por um bom tempo. Já chega a hora de terminar de relatar. É hora de caminhar pelo labirinto, não pelos mesmos lugares e mesmos fins, mas por novos fins, novos caminhos.

Da maior revolução das mentiras e verdades: o ato de viver e, eventualmente, mesmo sem querer, o de morrer. Tudo isso somente para que a roda gire novamente ao seu, meu, favor. Mas, por enquanto, o fim.

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